PRESENTES E INVISÍVEIS
MARCELO
EMANUEL DOS SANTOS
Abro esse artigo com a lembrança de um episódio que
considero significativo, ocorrido durante os Jogos Pan-Americanos realizados na
cidade do Rio de Janeiro em 2007. Na ocasião, minha intenção, além de
prestigiar os jogos, era observar qual o tratamento que mídia brasileira daria
aos atletas negros no evento esportivo. Eu partia do pressuposto que, numa
competição internacional dessa envergadura, todos os estereótipos negativos
construídos para população negra durante séculos, ou as armadilhas simbólicas
de negação dessa presença negra, como sinalizador da desigualdade racial no
Brasil, fossem estar superados, se considerarmos a importância, a qualidade e
os resultados que obteriam os atletas afro-descendentes durante as competições.
Porém, o que presenciei reafirmou o que muitos
estudiosos da questão racial e cultura negra sinalizaram durante anos, como
Sales Augusto na introdução do livro “Ações Afirmativas e Combate ao Racismo
nas Américas”:
A
profunda desigualdade racial entre negros e brancos em praticamente todas as
esferas sociais brasileiras é fruto de mais de
quinhentos anos de opressão e/ou discriminação racial contra os negros, algo que não somente os
conservadores brasileiros, mas partes dos progressistas recusam admitir. Assim
a discriminação racial e seus efeitos nefastos construíram dois tipos de
cidadania neste país a negra e branca
(AUGUSTO, 2002, p.15).
Apesar de estarmos no século 21, diante de conquistas significativas
do movimento negro pela igualdade racial, ainda é possível se deparar com
situações que materializam o imaginário da invisibilidade da exclusão e do
racismo, evidências sempre perceptíveis nos meios de comunicação de massa.
Vejamos o episódio a seguir:
Na competição de hipismo, categoria adestramento, a equipe
brasileira tinha um cavaleiro afro-descendente, Rogério Clementino, que saíra
da reserva para ocupar o posto de titular na equipe. Duas amazonas completavam
o conjunto brasileiro: Renata Costa e Luíza Almeida, de 15 anos, atleta mais
jovem da equipe. O Brasil obteve a medalha de bronze, um feito relevante, uma
vez que, para essa competição a equipe teve que enfrentar diversos problemas.
Esse resultado repercutiu expressivamente nos meios midiáticos que faziam a
cobertura dos Jogos. A atleta Luiza Almeida ganhou destaque nas coberturas
jornalísticas devido a sua pouca idade e pela competência ao substituir o
atleta titular, Jorge Ferreira da Rocha, de 61 anos, cortado da equipe devido a
uma intoxicação alimentar. Uma emissora de TV, ao se reportar ao acontecimento,
após a conquista dessa medalha, teceu diversos comentários a respeito de cada
atleta da equipe do adestramento. Em relação às duas amazonas, falou-se um
pouco da história de vida de cada uma, do desempenho e do papel da mulher nesse
tipo de competição. Porém, essa mesma emissora de TV, ao se referir a Rogério
Clementino, desportista negro, não fez ao menos uma alusão qualquer a sua
história de vida, nem mesmo a sua condição de atleta de ponta, ou mesmo
mencionou uma fala que fosse, sobre o desempenho do mesmo na competição. Na
reportagem, a postura da emissora foi a de reduzir a imagem desse atleta ao
homem que montava o cavalo do empresário Victor Oliva, ou seja, a reportagem
deu mais ênfase ao cavalo, ao empresário, do que propriamente ao atleta. Mais
uma vez estávamos diante do discurso simbólico da invisibilidade historicamente
imposta aos negros no país. Ficou evidente, nessa reportagem, o tratamento
desigual dessa emissora de TV para atletas brancos e negros.
No Brasil, as relações sociais estão permeadas de um
imaginário que define a população afro-brasileira como não passível de uma
possibilidade de igualdade com a população branca em diversas instâncias. Isso,
entre outras coisas, é consequência de uma memória coletiva hegemônica e
oficialmente estabelecida durante séculos, precisamente pós-abolição (ARAÚJO,
2000). No livro as Políticas Públicas e Desigualdade Racial no Brasil, Luciana
Jaccoud faz a seguinte afirmação:
O racismo nasce no Brasil
associado à escravidão, mas é principalmente após a abolição que ele se
estrutura como discurso, com bases nas teses de inferioridade biológica dos
negros, e se difunde no país como matriz para a interpretação do
desenvolvimento nacional. As teorias racistas, então largamente difundidas na
sociedade brasileira, e o projeto de branqueamento vigoram até os anos 30 século
XX, quando foram substituídos pela chamada ideologia da democracia racial
(JACCOUD,
2008, p. 49).
A luta e a mobilização da comunidade negra brasileira, por
meio de seus movimentos organizados, criaram gradativamente mecanismos de
resistências estratégicas que ao longo do tempo tentam mudar, em boa parte, o
contexto citado acima,
principalmente nos meios de
comunicação de massa. Neste cenário, apresentam-se dois tipos de memória
coletiva: a dos opressores e algozes históricos da população negra e a memória
dos povos da diáspora africana, em que se busca a ancestralidade, a manutenção
da cultura, autoestima, valorização de mulheres e homens negros, e acima de
tudo, o combate ao racismo nas suas mais variadas formas. Observa-se sempre as
manifestações de uma identidade negra brasileira comum entre os
afro-descendente para quem se vincula um desejo de pertencimento a um grupo
social coeso, em decorrência do sentimento de discriminação e desejo de
proteção e reação onde o consenso está em uma postura de reforço a autoestima
valorização do traços fenótipos (ARAÚJO, 2000).
A indústria cultural brasileira, na sua vertente de
operadora da hegemonia das classes dominantes (CHAUÍ, 1988), tem sido a
principal responsável pela construção de uma imagem negativa em relação aos
afro-decendentes brasileiros. Inclui-se nesse processo, a invisibilidade, na
qual se retira dos produtos culturais a existência de uma população negra no
país. Percebe-se também, por muitos anos, que nas novelas, livros didáticos,
cinema, comerciais de TV, revistas, etc., a interpretação dada a essa presença
mínima de mulheres e homens negros, na maioria das vezes, sempre foi pautada em
estereótipos negativos. Ou na desqualificação dessas pessoas, que eram vistas
como subalternas, sem capacidade intelectual, criminosas, sensuais, sem
vínculos familiares, feições exageradas, sem conduta ética ou solidária.
Nos artigos de Dennis Oliveira (2002): “A Construção da
Identidade Negra no Filme ‘Jubiabá’” e no de Maria Ângela Pavan (2002):
“Identificação e Estratégias nas Relações Étnicas na Telenovela 'Da cor do
pecado'”, os pesquisadores afirmam que, independentemente da proposta de
que os protagonistas sejam negros nos dois produtos midiáticos analisados nos
artigos, os estereótipos negativos e as relações sociais que põe em xeque o
valor de mulheres e homens negros estão presentes, reafirmando esse imaginário
hegemônico sociedade brasileira.
Conceição Evaristo (2000), em suas pesquisas sobre a
representação da mulher negra na literatura, além de propor uma reflexão
história sobre a negritude, afirma que a literatura brasileira, desde sua
formação, apresenta um discurso que insiste em proclamar, em instituir uma
diferença negativa para mulher negra.
Fernando Conceição faz uma observação interessante no seu
artigo “Olhar Étnico sobre a Mídia Impressa”:
É
o maior problema do afro-descendente na era contemporânea, que é por excelência
a era do signo imagético. De tanto ver sua imagem reproduzida nas
páginas
dos jornais destinados à violência criminal, como vítima ou algoz, o afro-
brasileiro acaba se confundindo com a própria imagem do crime
(CONCEIÇÃO, 2000, p.
02).
Joel Zito Araujo, no livro de sua autoria: “A Negação Do
Brasil: O Negro na Telenovela Brasileira”, além traçar um histórico da
teledramaturgia nacional, demonstra como as imagens de mulheres e homens negros
foram veiculadas nas novelas analisadas entre 1963 e 1997, comprovando a tese
de um discurso no qual prevalece um padrão sócio- racial euro-americanizado,
numa sociedade marcada pelo ideário de branqueamento pós- escravista. A pouca
presença de atrizes e atores negros nas telenovelas deste período estava
associada aos estereótipos negativos e tragédias, definindo desta forma o lugar
possível para essas atrizes e atores nas tramas
A geração de conhecimento sobre a cultura negra e as
relações étnico-raciais, em grande parte, emerge de campo de lutas e um
posicionamento político do movimento negro nacional, de estudiosos do assunto,
estudantes e intelectuais afro-descendentes. Essa produção científica foi
fundamental para uma mudança de postura, que possibilitou avanços expressivos
nas relações sociais referentes ao reconhecimento da importância da negritude
na formação do Estado nacional, na mudança de enfoque de um país que começa
entender as falácias do mito da democracia racial e admitir a existência de
racismo, inclusive o institucional. Esses estudos e pesquisas proporcionaram
uma leitura da realidade, na qual o entendimento de como se construíram os
elementos discursivos e simbólicos, referentes à população negra, foi
necessário para desconstrução de uma estrutura histórica até então.
As ações afirmativas são uma das principias conquistas da
luta do movimento negro e setores afins, como forma de uma reparação da
sociedade brasileira às atrocidades, crimes e racismo cometidos a esse grupo
social durante séculos, que, entre outras coisas, ocasionou impactos negativos
no imaginário nacional referente a essa população, na identidade e autoestima
de mulheres e homens negros. Outro ponto importante nesse rol de conquistas foi
a Lei no 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história da África e
dos africanos na educação básica e da cultura negra brasileira e sobre o negro
na formação da sociedade nacional, com objetivo de uma educação anti-racista.
É visível nos últimos anos, a mídia tem dado mais
visibilidade à população negra. Com tudo, em grande parte operando num cenário
dúbio, em que supostamente a quantidade não significa mudanças de estrutura
anterior, a presença negra está agora associada a um discurso de mestiçagem,
tendo como pano de fundo a ausência de uma sociedade racista e a permanente
negação do histórico de luta da população negra. É comum nesses meios
midiáticos, a desqualificação da ação política do movimento negro,
principalmente quando se trata de cotas raciais e de legislação específica para
a população negra. Essa postura caminha para uma tentativa de manutenção de uma
sociedade com bases racistas, que busca outros mecanismos para manter o seu
projeto hegemônico. Ainda é preciso estar atento não ao quantitativo, mas em
quais parâmetros e quais as representações estão em jogo na veiculação das
imagens e dos discursos referentes aos negros no Brasil.
Referências bibliográficas
AUGUSTO, Sales. “Introdução”.
In: Ações afirmativas e combate do racismo nas américas. Brasília: MEC,
2005.
ARAÚJO, Joel Zito. A negação
do Brasil. São Paulo: SENAC, 2000. CHAUI, Marilena. O que é ideologia. Coleção
Primeiros Passos. Rio de Janeiro:
Brasiliense, 1988. CONCEIÇÃO,
Fernando. A cor do medo. Brasília: UnB, 1998.
FLAUSINIO, Ana; HALBWACHS,
Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
LOPES, Luís. “Artefatos de
memória e representação nas mídias”. In: Ciberlegend. Rio de Janeiro:
UFF, 2002.
JACCOUD, Luciana. “Racismo e
república: O debate sobre o branqueamento e a discriminação racial no Brasil.
In: As políticas públicas e as desigualdade racial no Brasil 120 anos após a
abolição. Mario Theodoro (org.). Brasília: Ipea, 2008.
POLLACK, Michel. “Memória e
identidade social”. In: Estudos históricos, (10). Rio de Janeiro: Vozes, 1992.
SCOTT, Joan W. A
invisibilidade da experiência. São Paulo: PUC, 1998

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