quinta-feira, 1 de janeiro de 2015


PRESENTES E INVISÍVEIS
                                                                                            

                                                                           MARCELO EMANUEL DOS SANTOS



         Abro esse artigo com a lembrança de um episódio que considero significativo, ocorrido durante os Jogos Pan-Americanos realizados na cidade do Rio de Janeiro em 2007. Na ocasião, minha intenção, além de prestigiar os jogos, era observar qual o tratamento que mídia brasileira daria aos atletas negros no evento esportivo. Eu partia do pressuposto que, numa competição internacional dessa envergadura, todos os estereótipos negativos construídos para população negra durante séculos, ou as armadilhas simbólicas de negação dessa presença negra, como sinalizador da desigualdade racial no Brasil, fossem estar superados, se considerarmos a importância, a qualidade e os resultados que obteriam os atletas afro-descendentes durante as competições.
Porém, o  que presenciei reafirmou o que muitos estudiosos da questão racial e cultura negra sinalizaram durante anos, como Sales Augusto na introdução do livro “Ações Afirmativas e Combate ao Racismo nas Américas”:

                                   A profunda desigualdade racial entre negros e brancos em praticamente todas as esferas      sociais brasileiras é fruto de mais de quinhentos anos de opressão e/ou discriminação racial contra           os negros, algo que não somente os conservadores brasileiros, mas partes dos progressistas recusam admitir. Assim a discriminação racial e seus efeitos nefastos construíram dois tipos de cidadania neste país a negra e branca
(AUGUSTO, 2002, p.15).

         Apesar de estarmos no século 21, diante de conquistas significativas do movimento negro pela igualdade racial, ainda é possível se deparar com situações que materializam o imaginário da invisibilidade da exclusão e do racismo, evidências sempre perceptíveis nos meios de comunicação de massa.
         Vejamos o episódio a seguir:
         Na competição de hipismo, categoria adestramento, a equipe brasileira tinha um cavaleiro afro-descendente, Rogério Clementino, que saíra da reserva para ocupar o posto de titular na equipe. Duas amazonas completavam o conjunto brasileiro: Renata Costa e Luíza Almeida, de 15 anos, atleta mais jovem da equipe. O Brasil obteve a medalha de bronze, um feito relevante, uma vez que, para essa competição a equipe teve que enfrentar diversos problemas. Esse resultado repercutiu expressivamente nos meios midiáticos que faziam a cobertura dos Jogos. A atleta Luiza Almeida ganhou destaque nas coberturas jornalísticas devido a sua pouca idade e pela competência ao substituir o atleta titular, Jorge Ferreira da Rocha, de 61 anos, cortado da equipe devido a uma intoxicação alimentar. Uma emissora de TV, ao se reportar ao acontecimento, após a conquista dessa medalha, teceu diversos comentários a respeito de cada atleta da equipe do adestramento. Em relação às duas amazonas, falou-se um pouco da história de vida de cada uma, do desempenho e do papel da mulher nesse tipo de competição. Porém, essa mesma emissora de TV, ao se referir a Rogério Clementino, desportista negro, não fez ao menos uma alusão qualquer a sua história de vida, nem mesmo a sua condição de atleta de ponta, ou mesmo mencionou uma fala que fosse, sobre o desempenho do mesmo na competição. Na reportagem, a postura da emissora foi a de reduzir a imagem desse atleta ao homem que montava o cavalo do empresário Victor Oliva, ou seja, a reportagem deu mais ênfase ao cavalo, ao empresário, do que propriamente ao atleta. Mais uma vez estávamos diante do discurso simbólico da invisibilidade historicamente imposta aos negros no país. Ficou evidente, nessa reportagem, o tratamento desigual dessa emissora de TV para atletas brancos e negros.
         No Brasil, as relações sociais estão permeadas de um imaginário que define a população afro-brasileira como não passível de uma possibilidade de igualdade com a população branca em diversas instâncias. Isso, entre outras coisas, é consequência de uma memória coletiva hegemônica e oficialmente estabelecida durante séculos, precisamente pós-abolição (ARAÚJO, 2000). No livro as Políticas Públicas e Desigualdade Racial no Brasil, Luciana Jaccoud faz a seguinte afirmação:
                           
                       O racismo nasce no Brasil associado à escravidão, mas é principalmente após a abolição que ele se estrutura como discurso, com bases nas teses de inferioridade biológica dos negros, e se difunde no país como matriz para a interpretação do desenvolvimento nacional. As teorias racistas, então largamente difundidas na sociedade brasileira, e o projeto de branqueamento vigoram até os anos 30 século XX, quando foram substituídos pela chamada ideologia da democracia racial
                                                                                             (JACCOUD, 2008, p. 49).


         A luta e a mobilização da comunidade negra brasileira, por meio de seus movimentos organizados, criaram gradativamente mecanismos de resistências estratégicas que ao longo do tempo tentam mudar, em boa parte, o contexto citado acima,
principalmente nos meios de comunicação de massa. Neste cenário, apresentam-se dois tipos de memória coletiva: a dos opressores e algozes históricos da população negra e a memória dos povos da diáspora africana, em que se busca a ancestralidade, a manutenção da cultura, autoestima, valorização de mulheres e homens negros, e acima de tudo, o combate ao racismo nas suas mais variadas formas. Observa-se sempre as manifestações de uma identidade negra brasileira comum entre os afro-descendente para quem se vincula um desejo de pertencimento a um grupo social coeso, em decorrência do sentimento de discriminação e desejo de proteção e reação onde o consenso está em uma postura de reforço a autoestima valorização do traços fenótipos (ARAÚJO, 2000).
         A indústria cultural brasileira, na sua vertente de operadora da hegemonia das classes dominantes (CHAUÍ, 1988), tem sido a principal responsável pela construção de uma imagem negativa em relação aos afro-decendentes brasileiros. Inclui-se nesse processo, a invisibilidade, na qual se retira dos produtos culturais a existência de uma população negra no país. Percebe-se também, por muitos anos, que nas novelas, livros didáticos, cinema, comerciais de TV, revistas, etc., a interpretação dada a essa presença mínima de mulheres e homens negros, na maioria das vezes, sempre foi pautada em estereótipos negativos. Ou na desqualificação dessas pessoas, que eram vistas como subalternas, sem capacidade intelectual, criminosas, sensuais, sem vínculos familiares, feições exageradas, sem conduta ética ou solidária.
         Nos artigos de Dennis Oliveira (2002): “A Construção da Identidade Negra no Filme ‘Jubiabá’” e no de Maria Ângela Pavan (2002): “Identificação e Estratégias nas Relações Étnicas na Telenovela 'Da cor do pecado'”, os pesquisadores afirmam que, independentemente da proposta de que os protagonistas sejam negros nos dois produtos midiáticos analisados nos artigos, os estereótipos negativos e as relações sociais que põe em xeque o valor de mulheres e homens negros estão presentes, reafirmando esse imaginário hegemônico sociedade brasileira.
         Conceição Evaristo (2000), em suas pesquisas sobre a representação da mulher negra na literatura, além de propor uma reflexão história sobre a negritude, afirma que a literatura brasileira, desde sua formação, apresenta um discurso que insiste em proclamar, em instituir uma diferença negativa para mulher negra.
         Fernando Conceição faz uma observação interessante no seu artigo “Olhar Étnico sobre a Mídia Impressa”:


                        É o maior problema do afro-descendente na era contemporânea, que é por excelência a era do signo imagético. De tanto ver sua imagem reproduzida nas
                        páginas dos jornais destinados à violência criminal, como vítima ou algoz, o afro- brasileiro acaba se confundindo com a própria imagem do crime
                                                                                             (CONCEIÇÃO, 2000, p. 02).

Joel Zito Araujo, no livro de sua autoria: “A Negação Do Brasil: O Negro na Telenovela Brasileira”, além traçar um histórico da teledramaturgia nacional, demonstra como as imagens de mulheres e homens negros foram veiculadas nas novelas analisadas entre 1963 e 1997, comprovando a tese de um discurso no qual prevalece um padrão sócio- racial euro-americanizado, numa sociedade marcada pelo ideário de branqueamento pós- escravista. A pouca presença de atrizes e atores negros nas telenovelas deste período estava associada aos estereótipos negativos e tragédias, definindo desta forma o lugar possível para essas atrizes e atores nas tramas
         A geração de conhecimento sobre a cultura negra e as relações étnico-raciais, em grande parte, emerge de campo de lutas e um posicionamento político do movimento negro nacional, de estudiosos do assunto, estudantes e intelectuais afro-descendentes. Essa produção científica foi fundamental para uma mudança de postura, que possibilitou avanços expressivos nas relações sociais referentes ao reconhecimento da importância da negritude na formação do Estado nacional, na mudança de enfoque de um país que começa entender as falácias do mito da democracia racial e admitir a existência de racismo, inclusive o institucional. Esses estudos e pesquisas proporcionaram uma leitura da realidade, na qual o entendimento de como se construíram os elementos discursivos e simbólicos, referentes à população negra, foi necessário para desconstrução de uma estrutura histórica até então.
         As ações afirmativas são uma das principias conquistas da luta do movimento negro e setores afins, como forma de uma reparação da sociedade brasileira às atrocidades, crimes e racismo cometidos a esse grupo social durante séculos, que, entre outras coisas, ocasionou impactos negativos no imaginário nacional referente a essa população, na identidade e autoestima de mulheres e homens negros. Outro ponto importante nesse rol de conquistas foi a Lei no 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história da África e dos africanos na educação básica e da cultura negra brasileira e sobre o negro na formação da sociedade nacional, com objetivo de uma educação anti-racista.
         É visível nos últimos anos, a mídia tem dado mais visibilidade à população negra. Com tudo, em grande parte operando num cenário dúbio, em que supostamente a quantidade não significa mudanças de estrutura anterior, a presença negra está agora associada a um discurso de mestiçagem, tendo como pano de fundo a ausência de uma sociedade racista e a permanente negação do histórico de luta da população negra. É comum nesses meios midiáticos, a desqualificação da ação política do movimento negro, principalmente quando se trata de cotas raciais e de legislação específica para a população negra. Essa postura caminha para uma tentativa de manutenção de uma sociedade com bases racistas, que busca outros mecanismos para manter o seu projeto hegemônico. Ainda é preciso estar atento não ao quantitativo, mas em quais parâmetros e quais as representações estão em jogo na veiculação das imagens e dos discursos referentes aos negros no Brasil.



Referências bibliográficas
AUGUSTO, Sales. “Introdução”. In: Ações afirmativas e combate do racismo nas américas. Brasília: MEC, 2005.
ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil. São Paulo: SENAC, 2000. CHAUI, Marilena. O que é ideologia. Coleção Primeiros Passos. Rio de Janeiro:
Brasiliense, 1988. CONCEIÇÃO, Fernando. A cor do medo. Brasília: UnB, 1998.
FLAUSINIO, Ana; HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
LOPES, Luís. “Artefatos de memória e representação nas mídias”. In: Ciberlegend. Rio de Janeiro: UFF, 2002.
JACCOUD, Luciana. “Racismo e república: O debate sobre o branqueamento e a discriminação racial no Brasil. In: As políticas públicas e as desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. Mario Theodoro (org.). Brasília: Ipea, 2008.
POLLACK, Michel. “Memória e identidade social”. In: Estudos históricos, (10).        Rio de Janeiro: Vozes, 1992.
SCOTT, Joan W. A invisibilidade da experiência. São Paulo: PUC, 1998


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